bárbaro é o outro

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Tarcísio Greggio

No dia 13 de maio de 2019, o Memorial da República Presidente Itamar Franco inaugurou a exposição “Reminiscências: danças populares e processo civilizatório no Brasil”. Com fotografias, textos, esculturas e vídeos, a exposição reuniu uma pequena mostra da riqueza política, cultural e estética dos muitos cortejos, alguns dos quais centenários, ainda hoje espalhados pelo interior do país, assunto cuja beleza só rivaliza mesmo com sua importância para a experiência histórica brasileira.

O texto abaixo fez parte da exposição.

O conceito de civilização como processo de refinamento de condutas e realizações culturais é uma novidade do século XVIII, resultado de uma série de tensões históricas e linguísticas – as quais, naturalmente, merecem um texto à parte. A palavra, no entanto, deriva do latim civilis – isto é, o que diz respeito ao cidadão – e, apesar dos diferentes contextos históricos nos quais se inscreve, o uso que gregos e romanos fizeram do termo civilização parece ter sobrevivido à ação do tempo: bárbaro é o outro!

No correr do século XIX, em contato com o ideal de progresso, a noção de civilização ajudou a parir o conceito de raça, tão abjeto quanto o século XX não deixa esquecer, para finalmente encontrar, a serviço da mais pura barbárie, o paroxismo de sua instrumentalização. Mas essa já é a história de nosso tempo, em dia com as reminiscências por meio das quais, em cada uma de suas escolhas, essa exposição procura fazer a memória de nossos esquecimentos.

Caravelas portuguesas à frente, os europeus travaram contato com dois mundos inteiramente novos, inteiramente outros, aos quais restou, contra o peso de seu passado milenar, a violência da colonização – do latim colonus, pessoa instalada em um lugar novo -, essa sim uma palavra que teve de esperar a modernidade para conhecer toda a extensão de seu significado. Europeus e africanos de todas as nações passaram então a dividir a terra de tupiniquins, tupinambás, tamoios, caetés, potiguaras e tabajaras e, num par de séculos, viram nascer o que talvez tenha sido o maior mercado de escravos que o mundo já conheceu.

Bárbaros, selvagens, feiticeiros, desalmados, inferiores e agora mercadorias, iorubás, cabindas, minas, axantis e tantos outros acabariam por encontrar, nos ecos de sua ancestralidade, os meios de inverter os símbolos que “legitimavam” o açoite, evitando, tanto quanto possível, o abismo de tornar-se, nessa terra tão estrangeira quanto sua, um outro de si mesmo.

História que não deixa de ser a das Congadas, Maracatus, Moçambiques, Reisados e demais folguedos populares que, espalhados sobretudo pelo interior do Brasil, ainda hoje embalam a memória de um passado que insiste em não ceder. É, igualmente, a história de Kimpa Vita, a congolesa de origem nobre cujos milagres, considerados kindoki, decidiram seu destino de herege; e de Chico Rei, o ex-escravo que alforriava os seus e que, segundo consta, está na origem das Congadas em Minas Gerais.

É a história, enfim, de “todas as gerações do cativeiro, da liberdade, da esperança e a empoderada – agregadas nas gerações do espetáculo – [que] se encontram nas festas do tempo presente” (MONTEIRO, 2016, p. 37).

Bárbaro é o outro!

Crédito das imagens: Cris Nery

Referências

BERT, Jean-François. “Éléments pour une histoire de la notion de civilisation”. Vingtième Siècle. Revue d’histoire, Paris: Presses de Sciences Po, 2010/2, n° 106., pp. 71-80.

ELIAS, Norbert (1993). Processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2v.

MONTEIRO, Lívia Nascimento (2016). A congada é do mundo e da raça negra: memórias da escravidão e da liberdade nas festas de congada e moçambique de Piedade do Rio Grande-MG (1873-2015)”. Niterói: Universidade Federal Fluminense (tese de doutorado).

RODRIGUES, Raymundo Nina (2010). Os africanos no Brasil. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais


Como citar esse texto: GREGGIO, Tarcísio (2020). “Bárbaro é o outro”. Panteão: Memorial da República Presidente Itamar Franco. [online]. Acesso em: [dia-mês-ano da consulta], n.p. Disponível em: [link do post]


Tarcísio Greggio é diretor do Memorial da República Presidente Itamar Franco

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