Uma insinuação fascista

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Raquel Reis

Faz um tempo que o termo fascista se popularizou por conta de uma onda de governos de extrema-direita que conseguiram destaque político mundial, principalmente nos últimos anos. No entanto, sempre fiquei receosa que acontecesse uma banalização do termo, e há algum tempo o venho estudando. “Antissemitismo e propaganda fascista”, ensaio de Theodor W. Adorno que compõe “Ensaios sobre psicologia social e psicanálise”, foi muito bom nesse sentido. Ele é um texto curto e bem direto, e tenho visto ele sendo citado por alguns jornalistas nessa quarentena.

Longe de tentar expor suas ideias aqui, porque ficaria um texto muito extenso, queria explorar a noção de ‘performance’ do agitador fascista, que Adorno coloca como uma característica dessa propaganda. Os grandes líderes que são também medíocres, avessos a intelectualidade, tidos como histéricos muitas vezes, e que se vangloriam “por terem sido heróis atléticos em sua juventude”, com o objetivo único de destruir, não apresentam nenhum objetivo a ser alcançado, “a propaganda fascista ataca fantasmas, e não oponentes reais”, ela constrói imaginários, como o comunista.

O caráter fictício é “elemento vital” na propaganda fascista.

Esta pesquisa foi realiza nos Estados Unidos, já que o filósofo alemão teve que sair de seu país após a ascensão de Hitler. E isso torna seu trabalho ainda mais interessante para a nossa realidade. Por ter se posicionado contra os regimes alemão e italiano e a favor das nações democráticas, era proibido nos Estados Unidos a propaganda fascista, o que levava a mais uma característica posta pelo filósofo: a insinuação, causando entre interlocutor e ouvinte um sentimento de entendimento, como algo que não se pode falar, mas que se é entendido.

Para terminar:

“Os agitadores fascistas são tomados a sério porque arriscam a se passar por tolos. […] Hitler foi aceito, não apesar de suas bizarrices baratas, mas precisamente por causa delas, de sua entoação falsa e suas palhaçadas”.

Este ensaio é datado de 1946. E ele me fez perceber que nada é novo.

Crédito da imagem: UCLA Anderson Review

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W (2015). Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Editora Unesp


Como citar esse texto: REIS, Raquel (2020). “Uma insinuação fascista”. Panteão: Memorial da República Presidente Itamar Franco. [online]. Acesso em: [dia-mês-ano da consulta], n.p. Disponível em: [link do post]


Raquel Reis

Meu nome é Raquel Reis. Sou licenciada em Letras, pela UFJF, e mestre em Ciência da Literatura, pela UFRJ. Me realizo – nos dias de hoje – na leitura que estimula uma reflexão da nossa realidade e na escrita de algumas provocações.

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