a centralidade do leitor em borges

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Raquel Reis

Este livro é um livro de contos. Entre estes contos há um que se chama “pierre menard, autor do quixote”, no qual Jorge Luis Borges conta a história de Pierre Menard, um escritor com poucas obras relevantes e que deixou inacabado um trabalho um tanto audacioso: reescrever a obra de Miguel de Cervantes, Dom Quixote, da mesma forma que o original.

No entanto, não seria uma cópia simples:

“Inútil acrescentar que nunca levou em conta uma transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-los. Sua admirável ambição era produzir páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes”.

Além disso, Menard se propôs a mais um desafio, não escreveria com a cabeça de Cervantes (um homem do século XVII) e sim como ele próprio, um escritor do século XX.

Borges cria essa história para nos atentar ao fundamental papel do leitor na história da literatura. Menard serve de meio para trazer para a contemporaneidade a obra Dom Quixote pois, na realidade, somos incapazes de ler livros de séculos ou de décadas atrás da mesma forma que alguém pertencente a estas épocas.

Jovens escritores vanguardistas, como Borges, após se apropriarem de obras escritas anteriormente as transformam. Somos afetados pelo passar do tempo, e isso afeta nossa leitura.

“Confessarei que costumo imaginar que ele a terminou e que leio Quixote – todo o Quixote – como se Menard o tivesse pensado? Noites atrás, ao folhear o capítulo XXVI – que ele nunca ensaiou –, reconheci o estilo de nosso amigo e como que a sua voz nesta frase excepcional: “as ninfas dos rios, a dolorosa e úmida Eco””. 

Em um recente curso sobre a história do conto latino-americano, fiquei sabendo ainda que este conto foi publicado pela primeira vez em uma revista literária (Revista Sur) e que muitos leitores da época foram procurar saber quem era esse escritor, Pierre Menard, de que Borges falava.

Anos depois, com o lançamento de “Ficções”, esclareceu-se toda a história. Há ainda diversos outros contos desconcertantes neste livro. Eu demorei um pouco para virar leitora de Borges, e eu adoro esse sentimento de surpresa e perplexidade que ele me deixa.

É como conseguir propor um argumento da forma mais poética possível. De tal forma que se torna impossível ler Quixote sem se lembrar de Pierre Menard.

Crédito da imagem: Jorge Luis Borges, 1984 | © Levan Ramishvili / Flickr

REFERÊNCIAS

BORGES, Jorge Luis. “Ficções”. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


Como citar esse texto: REIS, Raquel (2020). “A centralidade do autor em Borges”. Panteão: Memorial da República Presidente Itamar Franco. [online]. Acesso em: [dia-mês-ano da consulta], n.p. Disponível em: [link do post]


Raquel Reis

Meu nome é Raquel Reis. Sou licenciada em Letras, pela UFJF, e mestre em Ciência da Literatura, pela UFRJ. Me realizo – nos dias de hoje – na leitura que estimula uma reflexão da nossa realidade e na escrita de algumas provocações.

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