abrindo o baile

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Resenha do livro “Abrindo o baile”, de Cyro Marcos da Silva + Entrevista com o autor

Na última sexta-feira (13/11), eu recebi um exemplar de “Abrindo o baile”, o novo livro de Cyro Marcos da Silva, que abriu meu final de semana com uma lufada de ar fresco. Gostei tanto da companhia que o livro me fez que resolvi esticar o assunto com o autor.

Cyro Marcos da Silva trabalha como psicanalista em Juiz de Fora. É nascido em Guarani, MG, e formado em direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Foi advogado, professor de Processo Civil e membro do Ministério Público do Espírito Santo. Foi ainda juiz de direito em Minas Gerais e Estado do Rio de Janeiro, neste se aposentando. É membro fundador do Núcleo de Pesquisa em Direito e Psicanálise da Universidade Federal do Paraná.

Cyro Marcos da Silva (Acervo Pessoal)

O resultado da conversa pode ser visto na entrevista abaixo, logo depois de uma breve resenha da obra.

Até aonde a memória alcança
Tarcísio Greggio

Em 2019, fizemos uma breve e aprazível viagem à Tiradentes. O dia e meio na cidade histórica fechou uma série de compromissos muito sérios, desses que “sisudeiam a gente” [p.49], aos quais Cyro emprestou um pouco de sua erudição invulgar.

Mas o que ficou, e ainda hoje me divirto ao recordá-las, foram as histórias que ele contava, uma depois da outra, feito um conjunto animando o baile.

Cyro é um grande contador de histórias. “Abrindo o baile” reúne algumas delas, boa parte das quais ambientadas em sua Guarany natal, “com este y que migrou para o meu prenome e me acompanha pela vida afora” [p.63].

As histórias ganham a companhia de observações sobre o amor, o trabalho, a saudade, a maternidade, a escrita, a arte e tudo o mais que aparece depois que alguém “deu corda em você e soltou você para arder na patinação da vida” [p.92].

Mas é uma crônica bem mineira, cozida a fogo baixo e temperada por algumas recordações epifânicas. Como a do homem de 80 anos que, já no beiral da vida, resolveu plantar uma jabuticabeira:

“O que importa é que tive um pai que me ensinou a ficar com água na boca! A aguardar jabuticabas! A desejar!” [p. 92].

Acredito que o livro fale ainda mais de perto com aqueles que, como eu, têm acesso às lembranças da infância por meio de frames descontínuos de terra, mato, açudes, arreios, Lambaris e Carás, recortados pela raspa de angu na panela queimada e pelo vozerio contido da gente simples e desconfiada brotada dos descampados que se abrem entre as montanhas de Minas Gerais.

“Abrindo o baile” é um livro singular, fluente em mineirês, que parece ter sido escrito a muitas mãos, a muitos bailes, e que nos leva até aonde a memória alcança.


Clique aqui para ver mais informações sobre o livro.

Entrevista

Tarcísio Greggio: Antes de entrarmos no livro, gostaria que você falasse um pouco sobre a sua trajetória no Direito, na Psicanálise e na Literatura.

Cyro Marcos da Silva: Minha formação acadêmica se fez pelo Direito na UFJF, onde me formei em 1971. Depois, fui promotor de Justiça no Espírito Santo, de 1974 a 1979. A seguir, juiz em Minas Gerais, de 1979 a 1981, e após fui juiz no Estado do RJ, onde me aposentei em 1992. Fui professor de Direito Processual Civil na Faculdade Vianna Junior e aprovado no concurso da mesma matéria na UFJF, mas não cheguei a tomar posse, para não acumular muitos afazeres.
Escrever é algo que me acossa desde muito cedo. Fui o orador da turma no primário. Na adolescência, escrevia poesias e crônicas no Jornal de Guarani, onde residia. Durante a faculdade, concorri e ganhei concurso de poesia na Faculdade de Direito. Depois que comecei a escrever, nunca mais parei. Editei o livro de poesias “Mergulho”, o “Guarany, etc. e tal” e o “Abrindo o Baile”.
Além destes, também escrevi dois livros fazendo articulação do Direito com a Psicanálise: “Entre autos e mundos” e “Meritíssimo, por que tantos méritos?”. Ao longo do tempo, também escrevi inúmeros artigos em revistas e trabalhos apresentados em congressos.

TG: Como foi o processo de escrita do livro e o porquê do título “Abrindo o baile”?

CMS: Fui juntando artigos que fui escrevendo aqui e ali, e muitos que já havia postado no Facebook. Quando me tranquei em casa, por força da quarentena, pensei em aproveitar o tempo de reclusão para selecionar os escritos e editar um livro. Eram inumeráveis os escritos. E aí começou o processo de: este fica, tá bom, este vai embora, não gosto. Juntei e rasguei também muita coisa que já não me agradava.
Em geral, na hora da seleção, só passa aquele que me afeta de maneira forte, nessa hora mais como leitor do que como escritor. O momento da escrita é forte, fugaz, intenso, mas se vai. O de leitor perdura. Ao ler os artigos, me detive num deles que fala do baile. E nesta quarentena me deu uma saudade danada de uma aglomeração com música. Não é isto um baile? E aí, pensei: precisamos continuar vivendo.
E para isto é preciso abrir um baile, voltar a por a mão no outro, abraçar, enlaçar, dançar. Daí, “Abrindo o baile” . E então, me lembrei de uma foto que uma prima me deu, foto de um baile lá em Guarani. Essa prima que está com 93 anos, lúcida e sempre adorou ir ao baile com o marido, com o qual está até hoje. Ela mesmo está num dos casais da foto da capa. A editora deu uma arrumada charmosa na capa. E gostei muito do título depois que o fixei.

TG: Você afirma, na abertura do livro, que “Abrindo o baile” é um ato de pertença e é justamente isso que me marcou, da primeira à última página. Que pertença é essa a que você se refere?

CMS: Convidei para fazer a orelha, prefácio, posfácio e apresentação alguns conterrâneos e outros amigos que se “amarram” naquilo que fazem. Amarram seus cavalos nas balizas dos seus trabalhos. Executam em ato uma pertença, tipo assim: ”é aqui que amarro meu cavalo”. É aqui que vou fazer pousada, que vou pernoitar.
O ser humano, o ser falante, é um perdido degradado quando não pede pousada, quando não se vincula a seja lá o que for, nas ofertas do trabalho ou do amor. Pertença para mim é um pouco isto: sair de sedutoras e perigosas derivas. Se meu livro laçou sua pertença, de uma certa forma às letras que nele rolaram, já me dou por satisfeito. E agradeço muito a oportunidade que você está aqui me dando para falar disto.


Tarcísio Greggio é Diretor do Memorial da República Presidente Itamar Franco

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