Eclipse da Razão

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Raquel Reis

A crise da razão, sugerida por Horkheimer, se dá na automação dos instrumentos de trabalho – causando o avanço industrial – tirando do indivíduo o próprio individualismo. A partir de movimentos e ações pautadas apenas no cientificismo e na lógica matemática, o ato de refletir sobre suas ações acaba se perdendo.

“Justiça, igualdade, felicidade, tolerância; todos os conceitos que, como mencionado, supunham-se, nos séculos passados, inerentes à razão e por ela sancionados, perderam suas raízes intelectuais”.

Com o objetivo da autopreservação, o ser humano se viu com a necessidade de dominação da natureza, tanto externa quanto interna. As liberdades que o avanço industrial prometera criou no mundo uma existência a partir da coletividade, já que com elas são criadas também inúmeras regras.

A crítica que Horkheimer faz à razão formalizada, ou subjetiva, é que ela se concentraria “nos meios”, e não “nos fins”. A relação de consequência – o pensar na finalidade de tal ato – se perde nessa sociedade. A natureza acaba se tornando um instrumento, sem possuir uma existência independente do ser humano.

No nosso dia-a-dia tumultuado e corrido, acabamos não refletindo sobre como construímos algumas relações, e isso acaba desumanizando nossos atos. Há sempre forças autoritárias prontas para se aproveitar dessa racionalidade irracional. Por isso é tão caro a elas o pensamento filosófico e as ciências sociais.

“O crime dos intelectuais modernos contra a sociedade está não tanto no seu distanciamento, mas no sacrifício das contradições e complexidades do pensamento às exigências do assim chamado senso comum. A habilmente processada mentalidade deste século conserva a hostilidade do homem das cavernas em relação ao estranho. Isso se expressa não apenas no ódio àqueles que têm uma pele de cor diferente ou vestem uma roupa diferente, mas também ao pensamento estranho e inusual, ou mesmo ao pensamento em si, quando ele segue a verdade para além das fronteiras delimitadas pelas exigências de uma dada ordem social. O pensamento hoje é demasiadas vezes compelido a justificar-se pela sua utilidade para algum grupo estabelecido, e não pela sua verdade. Mesmo se a revolta contra miséria e a frustração puder ser descoberta como um elemento em cada obra coerente do pensamento, a instrumentalidade em operar reformas não constitui um critério de verdade”.

REFERÊNCIAS

HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. São Paulo: Editora Unesp, 2015.


Como citar esse texto: REIS, Raquel (2020). “Eclipse da Razão”. Panteão: Memorial da República Presidente Itamar Franco. [online]. Acesso em: [dia-mês-ano da consulta], n.p. Disponível em: [link do post]


Raquel Reis

Meu nome é Raquel Reis. Sou licenciada em Letras, pela UFJF, e mestre em Ciência da Literatura, pela UFRJ. Me realizo – nos dias de hoje – na leitura que estimula uma reflexão da nossa realidade e na escrita de algumas provocações.

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