ATELIÊ DA ARTISTA, UMA ANÁLISE DA OBRA DE MARIA AUXILIADORA DA SILVA – p.1

Compartilhe

Ramon Vilaça

RESUMO: Maria Auxiliadora da Silva foi uma pintora brasileira, autodidata, nascida em Minas Gerais, mas que desenvolveu seu trabalho em São Paulo, dedicando-se exclusivamente a sua produção quando ficou incapacitada de trabalhar como doméstica por uma enfermidade. Neste estudo, apresento uma análise da obra Ateliê da artista e família, de 1973, pertencente ao acervo do MASP, buscando as auto referências e influências presentes na imagem, bem como propor uma reflexão sobre as representações e a repercussão crítica da artista.

Esse artigo será publicado em 5 partes, nos dias 04/01, 11/01, 18/01, 25/01 e 01/02 de 2021:

04/01 – Parte 1: Introdução
11/01 – Parte 2: A Artista
18/01 – Parte 3: A obra
25/01: Parte 4: Críticas
01/02: Parte 5: Conclusão

Parte 1 – Introdução

“Nenhum de seus desenhos é assinado, se chamarmos assinatura essas poucas letras, passíveis de falsificação, que representam um nome (…). Porém, todas as suas obras são assinadas com sua alma resplandecente.” Charles Baudelaire, 1863

O pintor da vida moderna, rabiscado por Baudelaire no final século XIX, é um sujeito que transcende as habilidades técnicas. Pensando atualmente, é difícil imaginar um artista, principalmente quando materializamos o status de sucesso com uma aparição na TV , que tenha sua produção desassociada de sua vida pessoal. Inclusive, é cada vez mais urgente a cobrança de posicionamento dos artistas, o que requer destes um esforço para refletir sobre o entorno que os circunda.

A artista Maria Auxiliadora da Silva, no fim dos anos 60, se juntou a uma trupe de artistas, do teatro, da música e das artes plásticas, na cidade de Embu das Artes, perto de São Paulo, liderada pelo poeta e ativista negro Solano Trindade, mas foi expondo na rua, na Praça da República, que esbarrou com a sorte, ao ser descoberta pelo crítico de arte Mário Schemberg, que lhe apresentou ao cônsul dos Estados Unidos Alan Fisher.

Em 1971, na galeria do consulado, o americano realiza com sucesso a primeira exposição de Maria Auxiliadora.

As obras, cheias de cor, vitalidade e energia, estampavam negros dançando, trabalhando com dignidade e sorriso no rosto, festas populares, cristãs e de religiões de matriz africana, e toda a alegria que era ocultada, de um povo que temia que sua história fosse apagada. Sem o estudo formal, a artista entrega uma produção que foi comparada a arte naif e primitiva, mas em sua construção é possível notar antecedentes da arte europeia e do modernismo brasileiro.

Abraçando a trajetória pessoal e investigando as ressonâncias da obra, esse artigo pretende contribuir na valorização do trabalho de Maria Auxiliadora e instigar o leitor a conhecer a rica e inteligente produção, que sutilmente traz reflexões acerca do racismo, diretas e indiretas, e levanta a bandeira do empoderamento, conscientemente ou não.

Crédito da imagem: Maria Auxiliadora da Silva, Ateliê, 1973 [reprodução]

Leia aqui a parte 2 desse artigo


Ramon Vilaça é de São José dos Campos, SP, e atualmente estuda Artes e Design no IAD, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sempre pensando nas conexões moda e arte, o artista busca estabelecer diálogos entre a produção artística de indivíduos afrodescendentes, queers e outros desfocados da visão predominante, resgatando suas histórias e vivências, para a partir destas, moldar um futuro mais multifacetado.

Siga o Memorial