Ateliê da artista, uma análise da obra de Maria Auxiliadora da Silva – Parte 2

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Ramon Vilaça

RESUMO: Maria Auxiliadora da Silva foi uma pintora brasileira, autodidata, nascida em Minas Gerais, mas que desenvolveu seu trabalho em São Paulo, dedicando-se exclusivamente a sua produção quando ficou incapacitada de trabalhar como doméstica por uma enfermidade. Neste estudo, apresento uma análise da obra Ateliê da artista e família, de 1973, pertencente ao acervo do MASP, buscando as auto referências e influências presentes na imagem, bem como propor uma reflexão sobre as representações e a repercussão crítica da artista.

Esse artigo será publicado em 5 partes, nos dias 04/01, 11/01, 18/01, 25/01 e 01/02 de 2021:

04/01 – Parte 1: Introdução
11/01 – Parte 2: A Artista
18/01 – Parte 3: A obra
25/01: Parte 4: Críticas
01/02: Parte 5: Conclusão

Parte 2 – A Artista

Pintora autodidata, Maria Auxiliadora da Silva nasceu em 1935, em Minas Gerais, e mudou-se para São Paulo com a família em busca de melhores condições. Ainda criança, já mostrava uma inclinação natural para tingir os fios que a mãe bordava para fora e, com 11 anos, já desenhava figuras, com carvão, nos muros. Não terminou a educação formal, estudando por pouco tempo, e começou a trabalhar como doméstica e passadora de roupa. Na casa dos 30 anos, passou por cirurgias e, durante a recuperação, na casa dos pais, passou a dedicar-se integralmente a pintura.

No fim dos anos 60, se juntou a um grupo de artistas na cidade de Embu das Artes, liderado pelo poeta, teatrólogo e ativista do movimento negro, Solano Trindade. Algum tempo depois, devido à concorrência dos hippies, Maria Auxiliadora passou a expor seu trabalho na Praça da República, no centro de São Paulo, onde conheceu o físico e crítico de arte Mário Schemberg, ele por sua vez, fez a ponte entre a artista e o consulado estadunidense, que pela iniciativa do cônsul Alan Fisher, sediou a primeira exposição de Maria Auxiliadora em 1971. Em 1972, aos 37 anos, Auxiliadora voltou a estudar, inscrevendo-se no Centro de Alfabetização de Adultos, universo que também retratou em seus trabalhos, mostrando a dura realidade dos cursos noturnos, repleta de dificuldades na aprendizagem. Foi acometida de um câncer fatal, não resistindo em 1974.

O reconhecimento de sua obra se deu postumamente, principalmente pela crítica internacional. Emanuel von Lauenstein Massarani, adido cultural do Brasil na Suíça, a situou na fronteira entre a arte primitivista e a arte bruta, longe do conformismo social e cultural. Coube ao alemão Werner Arnhold, no final da década de 1970, contribuir definitivamente para que Auxiliadora alcançasse renome na Europa, levando seus trabalhos a feiras de arte e exposições na Basiléia, Dusseldorf e Paris. A crítica internacional ficou fascinada pela forma como trabalhava as cores e as temáticas tipicamente brasileiras.

Crédito da imagem: Maria Auxiliadora da Silva, MASP [reprodução]

Leia aqui a parte 1 desse artigo


Ramon Vilaça é de São José dos Campos, SP, e atualmente estuda Artes e Design no IAD, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sempre pensando nas conexões moda e arte, o artista busca estabelecer diálogos entre a produção artística de indivíduos afrodescendentes, queers e outros desfocados da visão predominante, resgatando suas histórias e vivências, para a partir destas, moldar um futuro mais multifacetado.

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