Ateliê da artista, uma análise da obra de Maria Auxiliadora da Silva – Parte 3

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Ramon Vilaça

RESUMO: Maria Auxiliadora da Silva foi uma pintora brasileira, autodidata, nascida em Minas Gerais, mas que desenvolveu seu trabalho em São Paulo, dedicando-se exclusivamente a sua produção quando ficou incapacitada de trabalhar como doméstica por uma enfermidade. Neste estudo, apresento uma análise da obra Ateliê da artista e família, de 1973, pertencente ao acervo do MASP, buscando as auto referências e influências presentes na imagem, bem como propor uma reflexão sobre as representações e a repercussão crítica da artista.

Parte 3 – A Obra

Esse artigo será publicado em 5 partes, nos dias 04/01, 11/01, 18/01, 25/01 e 01/02 de 2021:

04/01 – Parte 1: Introdução
11/01 – Parte 2: A Artista
18/01 – Parte 3: A obra
25/01: Parte 4: Críticas
01/02: Parte 5: Conclusão

Maria Auxiliadora da Silva, Ateliê, 1973 [reprodução]

Datada de 1973, pintada de guache sobre cartão, nas dimensões 33 cm x 25 cm, traz a representação de um local de trabalho, um ateliê. Em primeiro plano, um escultor, que provavelmente dividia o espaço com a artista nos tempos do grupo de Embu das Artes, se dedica a máscaras africanas, vasos, uma sereia e umas figuras humanas. A disposição das esculturas, sob a mesa verde e amarela, e espalhadas no chão, mesmo que sem uma organização, não refletem uma bagunça, diz mais sobre uma multiplicidade de tarefas do que um falta de atenção. As figuras parecem olhar para o escultor, voltadas quase que numa pose de atenção ao aprendizado, como se o artista tivesse ensinando. É também um olhar que pode ser lido como admiração. No chão e na mesa vemos ferramentas de trabalho, recurso explorado pela artista também próximo do quadro em que a mesma se representa pintando. Talvez na intenção de sugerir a impulsividade do trabalho, os tubos largados dividem espaço com os chinelos da artista. Em representações analisadas em sala de aula, durante o curso, vimos os negros retratados descalços, qual será a motivação disso aqui? Passar humildade? Reforçar essa raiz? Ou apenas uma opção de conforto no local de trabalho?

Em 1911, Henri Matisse pintou um atelier de paredes rosé, com quadros e esculturas, e em destaque um tapete amarelo gema, aqui, o amarelo é usado nos fios da mulher vestida mais formalmente, de vermelho e salto alto, acompanhada de uma criança, menina loira de azul, aparentemente sua filha, e o companheiro, barbudo e de fios médios, que olha com admiração e/ou espanto para as obras nas paredes. A criança, com seu ar de “o que estou fazendo aqui” é a menos expressiva do conjunto, o aparente pai usa um conjunto azul e volta seu olhar para o alto do espaço, em direção diagonal a dois quadros com representações femininas, o da esquerda parece ser uma jovem, de vestido e turbante vermelho, colhendo uma flor, e o da direita, três jovens dançando, usando saia e uma blusa que deixa a barriga a mostra.

Propositalmente ou não, a artista veste os dois homens de azul, a criança de branco (os reflexos azuis parecem apenas evidenciar a cor alva do traje), a mulher loira de vermelho e a si mesma com uma calça vermelha e uma blusa azul. O lenço/turbante que usa é uma provável referência ao câncer. Nas mãos da mulher loira, é possível ver uma obra, o que aproximaria os sujeitos da figura de compradores de arte, trata-se da imagem de uma jovem, vestindo pouca coisa e com a cabeça inclinada para o lado.

Mesmo sem a formalidade clássica, a obra tem perspectiva e profundidade, os tijolinhos cor de rosa da parede trazem mais do que uma definição de primitiva pode verbalizar. Ao analisar pinturas com a mesma temática, o local de trabalho do artista, esbarrei na sala escura e abarrotada de espectadores, do artista Gustave Coubert, que em 1855 retratou o estúdio do pintor em LAtelier du peintre e, em dois trabalhos de Matisse, L’atelier rose, e L’atelier rosso, ambos de 1911, encontramos traços que não passam despercebidos na obra estudada. Assim como Coubert, Maria coloca na tela possíveis mecenas, compradores, incentivadores, ou no mínimo, curiosos. Retrata também corpos femininos com menos roupa, grupos de trabalho convivendo em um mesmo espaço (em Coubert nota-se um grupo de músicos e um leitor, na obra de Auxiliadora vemos o escultor) e claro, a auto referência. Já de Matisse, o não compromisso com a representação figurativa, as cores fortes e a distinção do cenário, que ganha destaque comparado com a obra de Coubert, são traços notados também no Ateliê da tupiniquim. É interessante a maneira como a “desorganização” aparece em tela, pois na arte moderna a representação ultrapassa a reprodução de uma imagem ou de uma alegoria. O dispor dos elementos diz muito sobre a autenticidade do pensamento e a liberdade criativa. Ao se colocar no centro da tela, com os quadros (trabalho), a família (o público) e o artista que divide o espaço (o meio artístico) formando uma moldura, Maria Auxiliadora cria uma narrativa empoderadora, onde por si mesma e para si mesma, constrói um ponto de destaque e auto afirmação.

Crédito da imagem destacada na chamada do post: Obra s/n; Guache sobre Cartão (1971) [reprodução]

Leia aqui a parte 1 desse artigo


Ramon Vilaça é de São José dos Campos, SP, e atualmente estuda Artes e Design no IAD, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sempre pensando nas conexões moda e arte, o artista busca estabelecer diálogos entre a produção artística de indivíduos afrodescendentes, queers e outros desfocados da visão predominante, resgatando suas histórias e vivências, para a partir destas, moldar um futuro mais multifacetado.

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