Ateliê da artista, uma análise da obra de Maria Auxiliadora da Silva – Parte 4

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Ramon Vilaça

RESUMO: Maria Auxiliadora da Silva foi uma pintora brasileira, autodidata, nascida em Minas Gerais, mas que desenvolveu seu trabalho em São Paulo, dedicando-se exclusivamente a sua produção quando ficou incapacitada de trabalhar como doméstica por uma enfermidade. Neste estudo, apresento uma análise da obra Ateliê da artista e família, de 1973, pertencente ao acervo do MASP, buscando as auto referências e influências presentes na imagem, bem como propor uma reflexão sobre as representações e a repercussão crítica da artista.

Parte 4 – Críticas

Esse artigo será publicado em 5 partes, nos dias 04/01, 11/01, 18/01, 25/01 e 01/02 de 2021:

04/01 – Parte 1: Introdução
11/01 – Parte 2: A Artista
18/01 – Parte 3: A obra
25/01: Parte 4: Críticas
01/02: Parte 5: Conclusão

Foi impossível não inquietar acerca das expressões dos brancos presentes na obra. Existe um ar de espanto, surpresa, admiração ou mesmo, inquietação. A sociedade brasileira carrega mais que apenas vestígios do período da escravidão:

“A prática escravocrata (…) pode ser genericamente compreendida como um fenômeno social, econômico, racial e de classes. No Brasil, a escravidão foi decisiva na estruturação da sociedade podendo ser percebida como um princípio da consolidação social, no qual gênero, raça e classe determinaram e ainda determinam como e onde os sujeitos estão inseridos. Nesse contexto, percebemos a camuflagem da desintegração social do negro brasileiro advinda da naturalização histórica da associação da cor da pele com a escravidão (…).”

SOB PELES NEGRAS: imaginário, repressão e representação visual de mulheres negras no Brasil dos séculos XIX e XX

Trazendo para a tela, o espanto de ver artistas negros diante trabalhos bem executados e/ou interessantes, pode ser lido de maneira preconceituosa, ou como minha interpretação, uma agradável surpresa, não posicionando os brancos como validadores, mas evidenciando uma relação de convivência. A artista pode ter representado sua clientela, seu inserimento no mercado especializado ou realmente trazendo uma crítica. E visto o histórico, e a multiplicidade de Maria Auxiliadora, ela pode estar fazendo tudo isso. O trabalho como doméstica despertou na artista a percepção sobre o “não-lugar”, reservado para a mulher negra brasileira:

“A experiência do não-lugar pode ser entendida como o ato de negar ao gênero feminino o direito de ocupar espaços considerados elitizados e, portanto, não associados tradicionalmente a tais mulheres. A elas a associação feita, de maneira geral, resumia-se às atividades subalternas como faxineira, babá, doméstica, lavadeira, entre outros. Dessa forma, a possibilidade de essas mulheres apropriarem-se de outros espaços (de maior prestígio social) causa estranhamento por parte daqueles que esperam que essas pessoas só ocupem os segmentos que são, naturalmente e historicamente, associados a essas (…)”

SOB PELES NEGRAS: imaginário, repressão e representação visual de mulheres negras no Brasil dos séculos XIX e XX

Maria e o escultor trabalham estampando sorriso, exibem seu dom perante os visitantes, quase que performando. A pintora foi percussora do body-art no Brasil, para dar volume aos corpos ela usava mechas do próprio cabelo. Suas experimentações incluíam uma mistura de massa para reparos domésticos com a tinta óleo, que proporcionam um relevo nas telas. Em relação a recepção crítica de seu trabalho, é notável que a imprensa por vezes, eclipsou as possíveis narrativas no trabalho de Auxiliadora, ressaltando sua origem humilde, sua falta de academicismo e os serviços que lhe garantiram o sustento.

“Acredita-se que o termo naïf tenha sido atribuído à obra de Auxiliadora justamente por se tratar de uma arte produzida por uma mulher negra e periférica, que havia sido empregada doméstica – ofício comum destinado a muitas mulheres negras como Auxiliadora”

ELA PINTA COMO SE ESTIVESSE BORDANDO: pinturas e vestimentas na obra de Maria Auxiliadora.

O trabalho de Hanayrá Negreiros destaca uma relação entre a pintura e métodos de vestimenta que são transmitidos através das oralidades e conhecimentos familiares femininos, como os bordados, constantes na produção de Maria Auxiliadora. A artista desenhava e costurava suas próprias roupas. Podemos ver muito desse interesse pela elaboração da indumentária em traços que lembram rendas e redes. Temas constantemente associados a brasilidade, são por vezes explorados pela indústria, sem o devido reconhecimento para as artesãs e para os povos negros e indígenas, fontes de diversos elementos culturais apropriados e usados pelos brancos sem preocupação com respeito e tradição. Vide a exploração dos elementos tropicais, das joias crioulas e dos turbantes pela cantora Carmen Miranda. Na década de 70, Zuzu Angel, uma das pioneiras da moda brasileira, se inspirou na tal brasilidade, trouxe trajes com flores e frutas, babados, rendas e turbantes. Nenhuma modelo negra foi chamada para as fotos. E nos poucos registros do desfile, também não se encontram. Ao desprezar os protagonismos e participações dessas figuras, houve um silenciamento histórico, enraizando o imaginário do “não lugar” do gênero feminino negro na sociedade, além de naturalizar a associação dos negros primeiramente com a escravidão e posteriormente, com a subalternidade.

Crédito da imagem destacada na chamada do post: Obra s/n; (1970) [reprodução]

Leia aqui a parte 1 desse artigo


Ramon Vilaça é de São José dos Campos, SP, e atualmente estuda Artes e Design no IAD, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sempre pensando nas conexões moda e arte, o artista busca estabelecer diálogos entre a produção artística de indivíduos afrodescendentes, queers e outros desfocados da visão predominante, resgatando suas histórias e vivências, para a partir destas, moldar um futuro mais multifacetado.

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