Arte pela democracia: As canções de protesto num país sob regime ditatorial

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O material a seguir integra a pesquisa para a composição da exposição "Seres políticos, seres plurais"

Durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, o Brasil viveu sob o regime militar, marcado pelo autoritarismo e pela repressão, regulando e controlando vários aspectos da vida social brasileira, principalmente a área cultural. Diante da conscientização popular, surgiram os protestos, alguns nas ruas, outros através das artes, numa encenação teatral, num filme, numa pintura e numa letra de música.

Em 1965, sob regime ditatorial, o país viu acontecer o primeiro Festival da Música Popular Brasileira, transmitido pela TV Excelsior, em São Paulo. Devido ao grande sucesso do evento, ele se repetiu no ano seguinte e outras emissoras começaram a investir no modelo, criando seus próprios festivais.

Surgia, assim, a Era dos festivais. E a música brasileira conquistou um notáveis alcance e influência no globo. Os militares, por sua vez, passaram a supervisionar as letras, questionando aquelas com temáticas homossexuais, antipatrióticas, esquerdistas, raciais e com quaisquer outros assuntos considerados ilegais pelos decretos oficiais. As composições deveriam ser interditados imediatamente, proibidas de tocarem.

Registro da Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968. Chico Buarque está de camisa verde escuro segurando o cartaz com a inscrição “Contra a repressão”. Imagem do fotógrafo David Drew Zingg no Acervo do Instituto Moreira Salles. (Reprodução/Crédito: David Drew Zingg)

Com o tempo, intensificaram as censuras. Os festivais e os músicos viviam sob a marcação cerrada do regime. E a repressão calou os eventos. O Ato Institucional nº5, o AI-5, mecanismo que decretou, em 1968, a censura absoluta dos meios de comunicação e das manifestações artísticas, tornou insustentável a continuação dos festivais.

Silenciados pela ditadura
Diante de uma nova realidade, cantores indignados com a vistoria dos militares criaram meios poéticos para driblar os censores. Nem todos os compositores, porém, conseguiram esse feito. O Sistema de Informação do Arquivo Nacional (Sian), que digitalizou, entre 2014 e 2016, documentos da época da ditadura, reúne em seu acervo mais de 75 mil letras de canções parcialmente ou completamente censuradas.

O regime que durou 21 anos tirou do país artistas, líderes políticos e muitos outros que se opuseram ao militares. Taiguara, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque foram alguns desses artistas que se viram forçados a partir. Taiguara, inclusive, foi um dos músicos mais censurados durante a ditadura, com 68 composições alvos dos militares. Ele saiu do país na década de 1970.

Registro da Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968. Imagem do fotógrafo David Drew Zingg no Acervo do Instituto Moreira Salles. (Reprodução/Crédito: David Drew Zingg)

Nos registros preservados pelo Arquivo Nacional, numa entrevista para uma rádio, Taiguara diz: “A partir do momento, no meu caso, se a música só fica para se divertir, para distrair um povo oprimido é evidente que eu pararia de novo de fazer música, pararia de cantar, iria embora. Faria qualquer coisa que fosse mais coerente que ser um mero palhaço no circo de uma ditadura.”

Caetano Veloso foi preso em dezembro de 1968, com seu amigo Gilberto Gil. “Subversivos”, foram acusados. Soltos em fevereiro do ano seguinte, exilaram-se, regressando apenas em 1972. “Aquele abraço”, de Gil, foi sua despedida de um país que tão bem soube representar.

Chico, por sua vez, retratou os silenciamentos da ditadura e também a esperança, tão presente em “Apesar de Você”. A música chamou a atenção de todos e também dos militares. Foi censurada para só em 1978 ser lançada novamente. O cantor e compositor chegou até a criar um pseudônimo, Julinho da Adelaide, para conseguir passar suas músicas pelos censores.

“Caminhando”, de Geraldo Vandré, tornou-se um hino de resistência do movimento civil. “Caminhando e cantando e seguindo a canção/ Somos todos iguais, braços dados ou não/ Nas escolas, nas ruas, campos, construção, Caminhando e cantando e seguindo a canção.” Também foi censurada, mas já era um hino pela liberdade.

Ainda que censuradas, muitas canções tornaram-se retrato de um tempo de dor e também de luta. Serviram e servem como registro e, acima de tudo, como norte. Alcançada a redemocratização, continuam fundamentais para que as liberdades sejam reverenciadas, reforçadas e defendidas.

Texto produzido por Luana Dias, bolsista de Treinamento Profissional do Memorial da República Presidente Itamar Franco sob supervisão de Mauro Gabriel Morais, coordenador de difusão cultural e educativo. Trabalho desenvolvido como atividade de pesquisa para a elaboração da exposição “Seres políticos, seres plurais”

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