‘A nossa história é marcada pela presença negra, de Norte a Sul’, destaca Marcelo Cunha | 19ª Semana Nacional de Museus

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Em exposição permanente no Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, estão 27 talhas monumentais representando orixás do candomblé, assinados pelo artista plástico Carybé. Também estão à vista do espectador peças religiosas afro-brasileiras e objetos africanos que ajudam a contar sobre a multiplicidade e complexidade do continente. A instituição localizada no centro histórico de Salvador ainda exibe máscaras africanas, utensílios cerâmicos, esculturas artísticas, adereços e muitas outras peças que dão conta de uma narrativa para além da escravidão.

Segundo o professor e pesquisador da UFBA Marcelo Cunha, coordenador do museu, é urgente que os museus, dedicados ou não ao tema afro-brasileiro, represente o negro na dinâmica social da sociedade brasileira tal como acontece das origens aos dias atuais. Convidado do webinar “Reflexões sobre a importância das coleções africanas e afro-brasileiras no processo de representação identitária”, na próxima terça-feira, 18, às 19h, o estudioso e gestor divide a mesa virtual com sua colega de instituição Jamile Borges da Silva, também professora na UFBA.

No evento, que integra a programação do Memorial da República Presidente Itamar Franco e tem transmissão aberta e gratuita pelo YouTube (/memorialitamarfranco), Cunha fala sobre sua experiência no museu e discorre sobre os caminhos no debate identitário do Brasil de 2021. Graduado em museologia na UFBA, doutor em história social pela PUC de São Paulo e pós-doutor em museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, de Lisboa, Cunha é um dos organizadores do recém-lançado “Estilhaços da memória: O Nordeste e a reescrita das práticas museais no Brasil”, em parceria com Clovis Britto e Suely Cerávolo.

Em entrevista por e-mail para o Panteão, Cunha reconhece as dificuldades do presente – “Este para mim é o ponto principal nesse momento: identificar, denunciar e combater retrocessos” -, defende a reflexão acerca das representações do negro nos museus do país e é enfático ao afirmar a importância das narrativas individuais na escrita da história coletiva.


O que a experiência na coordenação do Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia te despertou no debate sobre a valorização do patrimônio africano e afro-brasileiro no país? O que é urgente na discussão acerca das memórias africanas e afro-brasileiras hoje?
Em certa medida a ordem dos termos é inversa. Desde a minha graduação no curso de museologia, esta era uma questão que fazia parte das minhas reflexões, ordenadas em componentes curriculares, participação em projetos, etc. Depois, ingressando no departamento de museologia, um pouco após me graduar, participei da criação de um componente específico no curso de museologia, chamado Laboratório de Cultura Material Africana e Afro-Brasileira, voltado exatamente para esse debate. Esse contexto contribuiu para que eu fosse indicado para assumir, em 1997, um projeto de reestruturação do Museu Afro-Brasileiro, tendo minha participação evoluído em seguida para assumir a coordenação do museu, inexistente até então. No museu, no dia a dia em diálogo com os diversos públicos e com a aproximação cada vez maior com a questão, a partir dos programas, de documentação, atendimento ao público estudantil, conservação do acervo, exposições e eventos, as diversas questões inerentes a cada uma dessas ações foram ficando cada vez mais evidentes, como a necessidade ainda grande de reconstrução de discursos sobre a questão racial no âmbito das escolas, ou a dificuldade que artistas negros e negras passam para encontrar espaços para a exibição de suas obras, traduzida pela grande demanda pelo uso da sala de exposições temporárias do museu.
Preocupa o fato de que a urgência na discussão acerca das memórias africanas e afro-brasileira esteja relacionada a questões antigas, ancoradas no passado racista da nossa sociedade, traduzidas no presente racista no qual vivemos. Nesse quadro, o maior problema é que avanços alcançados a partir das lutas civis, que possibilitaram mudanças na história recente no trato e ações relacionadas à questão racial nesse país, juntamente com outras agendas relacionadas à agenda social, sofreram o golpe dos retrocessos vividos nos últimos anos, tanto no que diz respeito à ações afirmativas e de reparação, mas sobretudo no âmbito das mentalidades e discursos. Este para mim é o ponto principal nesse momento: identificar, denunciar e combater retrocessos.

“Preocupa o fato de que a urgência na discussão acerca das memórias africanas e afro-brasileira esteja relacionada a questões antigas, ancoradas no passado racista da nossa sociedade, traduzidas no presente racista no qual vivemos”

Qual a sua avaliação da presença do africano e do afro-brasileiro nos acervos dos maiores museus do Brasil? Como atuar para que as narrativas afro-brasileiras e africanas se façam mais presentes nesses espaços?
Sempre afirmo que os silenciamentos, omissões e a produção de discursos equivocados dos nossos museus, sobre trajetórias históricas e memórias individuais e coletivas relativas a mulheres e homens, negras e negros no Brasil, não estão relacionados à inexistência de acervos para isso. E daí, podemos pensar em duas situações que são complementares: 1 – Museus que aparentemente não têm ou não teriam acervos para essa missão, por estarem relacionados a outras perspectivas da história e memória nacional; 2 – Museus com acervos diretamente relacionados à questão. Sobre os primeiros o que posso dizer é que todos os acervos depositados nos museus brasileiros, em suas reservas técnicas ou exibidos em suas exposições servem para contar essas histórias. Digo isso a partir da perspectiva do entendimento de que a nossa história foi marcada pela presença negra, de norte a sul, e não apenas na perspectiva trágica da exploração de corpos negros no trabalho escravo, mas refiro-me a toda a dinâmica social, das nossas origens aos dias de hoje. Certamente que se não compreendemos essa questão e se concordamos com os processos de silenciamentos não vamos perceber essa possibilidade. Se assumimos que toda a estruturação da nossa sociedade durante mais de trezentos anos foi possibilitada e baseada na exploração da mão de obra escrava e as riquezas dela decorrentes, como imaginar que é possível abordar qualquer acervo referente a esse período sem tratar a questão racial. Mas daí é muito importante atentar para não cair na armadilha de reduzir essa importância à condição de escravizado e escravizada, afinal não era uma condição natural desses corpos, o contexto histórico implicou muitos outros papéis e contextos. Cuidado que deve ser redobrado ao pensarmos o pós-abolição e a contemporaneidade.

Assim, seja sobre o que formos falar e tratar em nossos museus, a partir dos nossos acervos e das infinitas possibilidades de construção de discursos para além dos objetos, é sempre possível falar sobre memórias e histórias afro diaspóricas em nosso país. Dos temas mais sensíveis aos mais leves.

Quanto ao segundo grupo, dos museus que possuem acervos diretamente ligados ao tema, normalmente classificados como etnográficos ou históricos, esses também precisam enfrentar várias questões. Entre elas, o fato de acabarem sendo configurados como esse escaninho, para o qual são encaminhadas essas referências dessa história à margem da história do Brasil. Um gueto entre os museus. E com essa consideração não estou desvalorizando a importância de tais lugares no longo processo afirmativo realizado a partir de tais instituições. Mas esse caráter acabou por, em certa medida, e muito em consequência da construção historiográfica limitada sobre a diáspora africana entre nós, reduzir muitas vezes a sua abordagem, fato mais uma vez reforçado pelo acervo existente e pela forma como foi trabalhado, destacando-se a recorrência de objetos de suplício e castigo depositados em suas reservas técnicas e exibidos em suas salas. Também nesses museus é necessário que sejam ampliados os temas que são tratados. Em investigações que venho realizando sobre o que se guarda em reservas técnicas em nossos museus, venho descobrindo uma infinidade de objetos guardados, que colaborariam para a produção de discursos críticos e diferenciados sobre o tema em nossos museus.

Sala de exposição no Museu Afro Brasileiro da UFBA. “A nossa história foi marcada pela presença negra, de norte a sul, e não apenas na perspectiva trágica da exploração de corpos negros no trabalho escravo, mas refiro-me a toda a dinâmica social, das nossas origens aos dias de hoje”, pontua Marcelo Cunha, coordenador da instituição. (Imagem: Divulgação)

Qual o peso das narrativas individuais na construção da história coletiva? Reconhecer os indivíduos e valorizar suas trajetórias seria um caminho para que tenhamos museus com mais representatividade?
Acredito que não há possibilidade de operar as questões que apontei acima se não for a partir das narrativas individuais e da valorização de trajetórias, articuladas à construção das histórias coletivas.


Confira a programação do Memorial para a 19ª Semana Nacional de Museus

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