‘No Brasil há uma tendência a se fazer a musealização da dor’, lamenta Jamile Borges da Silva | 19ª Semana Nacional de Museus

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Norival Moreira de Oliveira é baiano de Itaparica, crescido na periferia de Salvador, onde começou a frequentar as rodas de capoeira do Mestre Pirro e do Mestre Zeca. Ao som do berimbau tornou-se Mestre Nô, hoje um dos baluartes da Capoeira Angola. Suas histórias, ensinamentos e registros integram a exposição “Memórias periféricas da Capoeira Angola de Salvador: o acervo pessoal de Mestre Nô”, um dos trabalhos do Museu AfroDigital, coordenado pela professora e pesquisadora da UFBA Jamile Borges da Silva. Valorizando as narrativas individuais na construção da memória coletiva, a instituição virtual atua na reescrita – ou mesmo escrita – de uma história não apenas pautada pela dor da escravidão. “A gente patrimonializou a dor ao invés de patrimonializar a luta”, lamenta Jamile, que integra na próxima terça, 18, às 19h, o webinar “Reflexões sobre a importância das coleções africanas e afro-brasileiras no processo de representação identitária”, ao lado do colega de UFBA Marcelo Cunha. O evento faz parte da programação do Memorial para a 19ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Ibram.

Antropóloga por formação, mestre em educação pela UFBA, doutora (UFBA) e pós-doutora em antropologia na Argentina e em Lisboa, Jamile também coordena o projeto “Smart-cities e algoritimos de curadoria para os museus: Usos de app de museus e tour virtuais na construção das cidades inteligentes”, no qual investiga de que forma a tecnologia pode atuar a favor das instituições de memória. É para esse campo digital, inclusive, que a estudiosa aponta ao defender a ocupação de novos espaços para narrativas ainda invisibilizadas. “As tecnologias digitais trouxeram a possibilidade de que a fabricação da memória não esteja mais na mão de uma elite”, avalia em entrevista por e-mail ao Panteão.


De que maneira as narrativas individuais e as coletivas se organizam no acervo do Museu AfroDigital?
O projeto do Museu AfroDigital tem se constituído como um espaço para a reflexão sobre o trato com as memórias transatlânticas em contextos transnacionais e também como um espaço para experimentos com relação à forma de representação e exposição dessas narrativas e trajetórias. Se os museus físicos ainda são herdeiros da “ferida colonial” , em que pese as tentativas e práticas de superar o legado da colonialidade, os museus digitais podem se converter em lugares de memória com apelo diferenciado a usuários, pesquisadores, ativistas, movimentos sociais, para ir além das biografias grandiloqüentes e propor “artivismos” – como vêm chamando os estudiosos da arte queer e LGBTQIA+ – dissidentes e propositivos para recontar essas histórias.

Fotografia integra acervo pessoal do Mestre Nô, exposto na mostra “Memórias periféricas da capoeira Angola de Salvador”, do Museu AfroDigital. (Reprodução)

Como avalia a representação do negro nos museus brasileiros? O que é urgente e imperativo nesse cenário?
No Brasil há uma tendência a se fazer aquilo que eu chamo de musealização da dor. A gente patrimonializou a dor ao invés de patrimonializar a luta. Por quê? Nossas instituições acadêmicas, nossos lugares de memória, nossos espaços de poder ainda são profundamente brancos, heteropatriarcais e coloniais. Ainda comprometidos com uma mentalidade colonialista, com a ideia de que os museus, quando deixam de ser gabinetes de curiosidade, se convertem em espaço para egonarrativas, musealização de biografias escravistas e opressoras. Gradualmente, isso vem se modificando, mas nossas instituições de memória ainda têm um comprometimento muito maior com estabelecer um retrato do passado do que em construir resistências baseadas na coleta do tempo presente e nas diversas formas de lutas que as populações historicamente subalternizadas vêm desenvolvendo.

É urgente fazer dos museus espaços de fricção, de disputa, em lugar de ser espaço de consenso sobre o passado atávico colonial. O que pode ajudar nesse processo? Não temos um projeto nacional de política patrimonial, mas, de alguma maneira, as pessoas estão se apropriando das ferramentas de memória. As tecnologias digitais trouxeram a possibilidade de que a fabricação da memória não esteja mais na mão de uma elite.

Qualquer pessoa pode produzir sentidos sobre as memórias e produzir seus artefatos museais. É hora de baixarmos o tom desse discurso elitista que nosso pensamento museal ainda tem e nos aproximarmos das pessoas e entendermos como elas lidam com suas histórias e como podemos aproximá-las da história coletiva. Será preciso realizar um processo que eu chamo de (re)semantização da memória, isto é, uma espécie de cirurgia. Uma cirurgia metodológica, epistemológica e ontológica que consiga compreender e delimitar a proximidade e o distanciamento entre o profundo sentimento de dor associado aos traumas da diáspora africana e o reconhecimento dos modos como as instituições canônicas de memória – os museus, os arquivos e as bibliotecas – lidam com o presente e o passado dessas populações afro-diaspóricas . Então, (re)semantizar a memória é tratar essa memória que é de dor, mas também é de resistência.

“A gente patrimonializou a dor ao invés de patrimonializar a luta. Por quê? Nossas instituições acadêmicas, nossos lugares de memória, nossos espaços de poder ainda são profundamente brancos, heteropatriarcais e coloniais.”

Nos últimos tempos vemos uma abertura maior do mercado editorial para os debates e questões étnicos, que, por sua vez, têm mobilizado leitores e resultado em grandes vendagens. De que maneira esse fenômeno contribui para a valorização da memória africana e afro-brasileira no país? Quais reflexos isso tem nas noções de pertencimento, de identidade?
Acredito que estamos conseguindo desenvolver uma pedagogia decolonial – quiçá anticolonial – desse lado de cá do Atlântico. Uma pedagogia que ajuda a fabricar e a difundir outras narrativas críticas à continuidade desse passado colonial (atávico), performatizando futuros enquadramentos teóricos e metodológicos para romper fronteiras para além dos hífens (afro-brasileiros, afro-americanos, afro-colombianos ou afro-portenhos, por exemplo). Quero dizer que há, inequivocamente, dois processos em curso em meu entender: de um lado há mulheres e homens intelectuais negras e negros que conseguiram furar a bolha do mercado editorial e promover o protagonismo dessa escrita racialmente marcada nos corpos, nas letras, nas formas narrativas e nos recursos estilísticos (se pensarmos nas escritoras negras de ficção científica ou nas literaturas de mulheres negras periféricas ). De outro lado, há o tradicional establishment do mundo editorial que entendeu a urgência de promover em seus catálogos o discurso da diversidade, ainda que seja na gôndola secundária desse mesmo mercado. Mas isso também é interessante porque nós podemos aprender com se faz e como se organiza o poder a partir do topo, não somente a partir das bases, que é como historicamente nós temos feito. Então, dialogar com quem detém os modos de produção da narrativa e disputar essas narrativas de dentro é ainda melhor do que de fora. São situações de ônus e bônus.

Corremos riscos nessa arena de disputas identitárias e políticas, mas ganhamos experiência e podemos criticar as tecnologias de visibilidade/ invisibilidade produzidas contra nossos corpos e cabeças. Tenho dito que qualquer diálogo entre o topo e as bases precisa assumir de partida que nós não vivemos em um mundo de relações horizontais, portanto, quem tem as ferramentas de poder precisa aprender a partilhar de modo honesto e sem demagogias.

Editoras e mercado audiovisual e de tecnologias digitais precisam recuar em sua condição de “voz única” e representatividade “universal”, cedendo lugar a outros modos de vida, de comportamentos, de estéticas, etc. Quando essa horizontalidade assume uma falsa condição de igualdade , ela não contribui em nada para um diálogo produtivo entre donos de editoras e escritores à margem desse mercado. Antes de um diálogo, é preciso começar reconhecendo as desigualdades de poder, os privilégios e a cumplicidade de quem sempre esteve no conjunto do 1% da população, em relação a toda exploração que os 99% sofrem desde sempre.


Confira a programação do Memorial para a 19ª Semana Nacional de Museus

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