‘O livro impresso em papel coexiste com o livro eletrônico’, assegura Diná Marques Pereira Araújo | 19ª Semana Nacional de Museus

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No último Painel do Varejo de Livros no Brasil, pesquisa realizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros em parceria com a Nielsen Bookscan Brasil, no terceiro mês de 2021 foram vendidos quase 40% mais livros do que no mesmo período do ano anterior. O aumento nas vendas também se refletiu na ampliação de arrecadação do setor, na ordem de quase 30%, e no acréscimo de ISBN (sistema internacional de identificação de livros) emitidos, de quase 20%. Após longos meses de livrarias fechadas e diante de uma lenta e gradual reabertura, o mercado dos livros mostra sua resiliência. Os livros não morrem e a pesquisadora Diná Marques Pereira Araújo bem sabe disso.

Doutoranda em Ciência da Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Diná investiga livros raros e livro de artista. Bibliotecária da instituição na qual estuda, ela também atua como restauradora e conservadora de documentos gráficos, material sobre o qual ela fala nos dois dias, 20 e 21, das 9h às 11h, do minicurso “História do Livro: origens, transformações e permanências”. O evento integra a programação do Memorial na 19ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Ibram.

Em entrevista por e-mail ao Panteão, Diná explica o conceito de livro raro e fala sobre as transformações vividas pelo resiliente livro. “É interessante observar que nas três revoluções estão presentes a coexistência dos modos de produção dos textos, dos suportes e das práticas de leitura. A cultura manuscrita, por exemplo, não deixou de existir após a invenção dos tipos móveis. Nem o pergaminho foi imediatamente substituído pelo papel”, observa a pesquisadora, recusando a perspectiva de que as tecnologias digitais colocam fim ao formato em papel.


O que a história do livro nos diz sobre a formação de nossa sociedade?
Os documentos gráficos (livros manuscritos, livros impressos, panfletos, gravuras, manuscritos autógrafos, documentos arquivísticos, dentre tantos outros) registram as formações das sociedades.

A história do livro revela como as culturas formulam os seus modos de pensar; como e quais materialidades foram escolhidas para compor os discursos desses documentos; a circulação de ideias e as censuras; e, ainda, os muitos modos de apropriação, invenção e produção de significados produzidos a partir da leitura.

Quais são as principais transformações vividas pelos livros ao longo dos tempos? E como ele chega a 2021?
De acordo com o historiador Roger Chartier o livro, ao longo dos tempos, já passou por três grandes revoluções: a primeira ocasionada pela mudança do suporte em rolos (volumen) para o suporte em folhas dobradas e costuradas (o códice); a segunda, ocasionada pelas mudanças do suporte para a escrita (do pergaminho ao papel) e da técnica de inscrição da escrita (a tipografia); e a última revolução, ocasionada pelo impacto das tecnologias eletrônicas e digitais para a produção do livro. Nas três revoluções podemos verificar mudanças de formas, de materialidades e de suportes para a produção o livro. É interessante observar que nas três revoluções estão presentes a coexistência dos modos de produção dos textos, dos suportes e das práticas de leitura. A cultura manuscrita, por exemplo, não deixou de existir após a invenção dos tipos móveis. Nem o pergaminho foi imediatamente substituído pelo papel. E em nenhumas das revoluções os modos de leitura foram abruptamente modificados. Em 2021 o livro impresso em papel coexiste com o livro eletrônico e com os múltiplos novos modos de leitura em ambientes digitais. Nesse sentido, e ainda de acordo com Chartier, cabe a nós refletir sobre as ordens dos discursos na cultura impressa e na cultura digital. Quem lê? Quem não lê? Quem é excluído dos processos de acesso a determinados livros? Quais livros circulam? Quais livros não circulam? Em quais comunidades circulam e deixam de circular?

“Quem lê? Quem não lê? Quem é excluído dos processos de acesso a determinados livros? Quais livros circulam? Quais livros não circulam? Em quais comunidades circulam e deixam de circular?”

O que caracteriza um livro raro? Como o Brasil trata seus livros raros?
A raridade bibliográfica é construída a partir de elementos que conferem ao livro sua singularidade que são: a materialidade, a escassez, a proveniência e o discurso (o texto). No contexto do colecionismo um livro é raro quando é o objeto de desejo de um bibliófilo. Nas instituições de guarda patrimonial, como as bibliotecas e os museus, a raridade também contém os elementos descritos acima, contudo, o significado da memória da cultura escrita é o eixo principal para as atribuições de raridade. No Brasil, desde a invasão dos portugueses, podemos observar a formação de acervos com livros antigos, inicialmente pelas ordens religiosas em várias capitanias e, após alguns séculos, com a chegada dos reis em 1808, a Real Bibliotheca traz raridades, cimelios e muitos documentos gráficos de grande valor. As primeiras universidades brasileiras também constituíram acervos antigos e raros. Atualmente muitos arquivos, bibliotecas e museus, em todo o país, possuem livros antigos e raros, de um modo geral, eles são selecionados por meio de critérios de raridade, que compõem as políticas de formação e desenvolvimento de acervo das instituições; e são salvaguardados em locais de acesso restrito com consulta agendada e monitorada, por questões de segurança patrimonial.


Confira a programação do Memorial para a 19ª Semana Nacional de Museus

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