‘Vivemos um retrocesso nas políticas públicas relacionadas à memória’, alerta Zita Possamai | 19ª Semana Nacional de Museus

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Brasil afora, muitos museus enfrentam há mais de um ano o desafio de se fazerem presentes na sociedade mesmo com suas portas fechadas pela pandemia de Covid-19. Despertar pertencimento, no entanto, sempre se apresentou como um dos principais dilemas das instituições que atuam com a memória. Atualizar-se num mundo cada vez mais conectado, também. Como encarar o presente e se preparar para o futuro? À questão, a professora do curso de museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Zita Possamai dedica sua trajetória acadêmica.

Convidada do Memorial para a programação da 19ª Semana Nacional de Museus, que acontece entre os dias 17 e 23 de maio, Zita ministra, no próximo dia 17, às 17h, pelo YouTube, o minicurso “Museus e contemporaneidade: construção de uma memória de pertencimento”. Doutora em história pela UFRGS, com pós-doutorado na Universidade Paris 3, a pesquisadora é autora dos livros “A memória cultural numa cidade democrática”, de 2001, e “Nos bastidores do museu: patrimônio e passado da cidade de Porto Alegre”, do mesmo ano.

Líder do Grupo de Estudos em Memória, Patrimônio e Museus (Gemmus), Zita é membro do Conselho Internacional de Museus e uma ativa voz no debate patrimonial de sua Porto Alegre. Em entrevista por e-mail ao Panteão, a pesquisadora defende a aproximação dos museus com seu entorno, atuando de maneira próxima do público e permitindo que ele integre o fazer da instituição. Tratando da tecnologia, a estudiosa reconhece as possibilidades que novas interfaces oferecem, mas alerta para a necessidade de se discutir maneiras eficientes de preservação para novas mídias. “Precisaremos criar meios e recursos adequados para não perdermos para sempre os registros em meio digital”, observa, lamentando o presente do país e os recentes cortes orçamentários, que afetaram substancialmente as instituições museais.


Memorial – Há estratégias específicas para a criação de pertencimento nas pessoas em relação aos museus e espaços de memória? O que envolve esse pertencimento?

Zita Possamai – O pertencimento é um sentimento construído de modo subjetivo pelas pessoas na relação com lugares, espaços, cidades, etc., ao longo do tempo. Museus e espaços de memória podem criar esses laços na medida em que se tornem relevantes na vida das pessoas. Os museus podem ser parceiros das pessoas na valorização de sua cultura, na resolução de problemas sociais ou no enfrentamento das questões ambientais. Quanto mais diretamente vinculado à vida cotidiana das pessoas, mais o museu se tornará um instrumento a serviço dos grupos ou coletividades. Contudo, os museus apenas atingirão essa relevância cultural, ambiental ou social se estiverem abertos à população do lugar onde está situado, seja um lugarejo, um bairro, uma cidade ou região e aos sujeitos envolvidos com as problemáticas que deseja abordar. Um dos primeiros passos importantes é o mapeamento dos seus públicos e da população que o envolve, a partir dos métodos oferecidos pelas pesquisas de público. Além disso, a pesquisa de cunho etnográfico pode ser uma ferramenta excelente para conhecer o modo de vida das pessoas e as questões por elas enfrentadas e que o museu poderia contribuir com sua expertise. Há muito tempo, a Nova Museologia ou a Sociomuseologia orienta no sentido da escuta das pessoas para a definição de estratégias dos museus afinadas com essas demandas. Mas não basta realizar ações impostas de cima para baixo. O museu necessita criar canais de diálogo com as pessoas e associações, tais como reuniões, fóruns, conselhos, comissões, assim como é fundamental a participação direta das pessoas na concepção e na realização de ações, nas quais os sujeitos deixem de ser meros visitantes espectadores e passem a ser agentes do processo museológico ao lado dos profissionais. Acolher as demandas e envolver as pessoas diretamente nos projetos do museu pode ser uma estratégia interessante para criar laços de pertencimento.

“Quanto mais diretamente vinculado à vida cotidiana das pessoas, mais o museu se tornará um instrumento a serviço dos grupos ou coletividades”

Quais desafios a globalização e a ampliação do virtual impõem para as questões da memória?

O mundo virtual nos permitiu conhecer e circular por lugares sem limitações geográficas, bem como poder assistir conferências ou realizar debates e reuniões com pessoas do mundo todo. Nesse contexto da pandemia da Covid 19, os meios virtuais permitiram a conexão mundial, assim como a realização de inúmeras atividades em segurança. Todavia, nem todos têm acesso ao mundo digital e muitas pessoas estão excluídas dos recursos econômicos e tecnológicos que o caracterizam. A transposição de muitos aspectos de nossas vidas para o ambiente virtual impõe desafios para a memória. Por um lado, o esmaecimento das práticas que proporcionavam o encontro e o fortalecimento das memórias entre os membros de um grupo, como a família, por exemplo, trará consequências ainda não conhecidas, porque muito recentes. Por outro lado, nesse contexto da pandemia, o virtual permitiu que famílias, amizades e outras relações pudessem se manter próximas, graças justamente ao contato por meio das tecnologias, sem implicar em risco à vida. Além disso, no campo da gestão patrimonial, os registros escritos e audiovisuais em variados suportes materiais transpostos ao digital impõem novas tecnologias para a preservação às futuras gerações. Se por um lado, não precisaremos de grandes espaços e recursos para manter imensos arquivos em papel, por outro lado, precisaremos criar meios e recursos adequados para não perdermos para sempre os registros em meio digital.

Quais são os principais imperativos do debate do patrimônio e da memória das cidades no Brasil hoje? O que é urgente?

No Brasil, no contexto atual, vivemos um momento de retrocesso nas políticas públicas relacionadas à memória e ao patrimônio. Se isso ocorre na instância federal de modo contundente, por outro lado, em algumas regiões, estende-se também para as instâncias estaduais e municipais.  Assim, vemos legislações protetivas do patrimônio ambiental, material ou imaterial sendo anuladas, substituídas ou simplesmente ignoradas em benefício de setores econômicos que historicamente disputam a destinação e os usos de nossos patrimônios, como o setor imobiliário, agropecuário, minerador, entre outros. Por outro lado, passamos de um contexto político e econômico de grandes investimentos em Educação, Cultura e Ciência e Tecnologia para uma situação de cortes orçamentários expressivos nessas áreas, situação que se reflete diretamente na desvalorização de projetos vinculados às questões de patrimônio e memória. Nesse contexto inóspito, é urgente resistir às tentativas de retrocessos, principalmente aqueles que implicam na destruição dos patrimônios ambiental e arquitetônico ou na utilização excludente e não democrática do patrimônio urbano. Por outro lado, é imprescindível criarmos formas alternativas de valorização da cultura e das memórias locais, ou seja, aquelas expressões que convencionamos denominar por patrimônio imaterial.


Confira a programação do Memorial para a 19ª Semana Nacional de Museus

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