O punho cerrado do movimento negro: antecedentes e remanescentes

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O material a seguir integra a pesquisa para a composição da exposição "Seres políticos, seres plurais"

O movimento negro no Brasil é um dos mais antigos movimentos políticos do país. Os primeiros registros de grupos similares datam o século XVII, quando as irmandades espalhadas pelos estados representavam as primeiras organizações políticas constituídas por negros no período colonial. Com o passar dos anos, as expressões instrumentalizadas tomaram formatos e dinâmicas diferentes, mantendo pautas como o combate ao racismo, a defesa dos direitos da população negra e a preservação e legitimação de identidades e saberes culturais.

1931 é o ano de nascimento da Frente Negra Brasileira, precursora do movimento no século XX. Reunindo diversas expressões e grupos, a FNB é registrada como um partido político no ano de 1936, em uma afirmação da força que fora capaz de alcançar em poucos anos de existência. No ano seguinte, no entanto, deixa de existir em função da extinção dos partidos políticos durante o governo de Getúlio Vargas, o Estado Novo. Com a disseminação desse núcleo político, grupos menores continuam a se articular pelo país, muitos agregando caráteres religiosos e culturais.

Documentário produzido pela TV Cultura em 1977

A invisibilidade se debruça sobre esses ativismos, fazendo com que o período entre 1937 e 1978 pareça ser uma interrupção na agenda do movimento negro. A resistência se esgueirava em clubes, associações e espaços alternativos, voltados para cultura, lazer e educação. Nesses locais, mostravam os negros, também cabia o protesto. Em 1964, a ditadura militar foi um golpe também na integridade do movimento negro, fazendo com que os debates de caráter racial fossem reprimidos e rechaçados, acusados de discutir um problema que não existia no Brasil, o racismo.

Lideranças desestabilizadas e grupos disseminados enfraqueceram o movimento. Muitas atividades permaneceram clandestinamente. Com a década de 1970 surge um apelo pela formação de uma consciência negra, objetivando elucidar a importância do ser negro para a formação da sociedade brasileira. Por meio de pautas político-culturais, intelectuais negros atuavam para tornar popular um movimento que tinha como finalidade a valorização da cultura negra e as reivindicações por melhores condições socioeconômicas para essa população.

Grupos informais remanescentes da FNB também se juntaram a grupos de universitários, funcionários públicos e operários negros, que se propuseram a discutir as relações políticas. Enquanto isso, artistas plásticos, escritores, atores e músicos negros também integraram um movimento artístico alinhado à busca por uma consciência negra. Vários grupos se organizaram país afora, vitais para o fortalecimento de reinvindicações por um país justo e igualitário. Um desses grupos foi o Palmares, formado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que em 1971 propôs a substituição da comemoração do dia 13 de maio pelo dia 20 de novembro.

Entrevista de Lelia Gonzalez concebida em sua residência a Enugbarijö Comunicações e preservada pelo Acervo Digital de Cultura Negra (Cultne)

Na mesma época, outros movimentos populares, como o estudantil e o operário, discutiram a unificação, o que também recaiu sobre o movimento negro. Com vários núcleos de ativismo negro espalhados pelos estados, a comunicação entre eles era inevitável, e a ideia de criar uma unidade a partir da pluralidade do movimento ganhou força em 1974. Em 1978, uma manifestação no Viaduto do Chá, em São Paulo, reuniu milhares de pessoas. O protesto se voltou contra a violência policial, que matou o trabalhador Robson Silveira de Luz, e contra os atos de discriminação com atletas negros, cometidos pelo Clube Tietê de São Paulo. Criava-se, então, o Movimento Negro Unificado.

Hoje, o MNU soma mais de quarenta anos de ativismo, ocupando as ruas e espaços públicos como forma de visibilizar a luta contra a discriminação racial e pela valorização de vidas negras, assim como incontáveis organizações com o mesmo propósito. Dada a continuidade e a sobrevivência do ativismo negro no Brasil, as mobilizações sob essas bandeiras ocupam um lugar de grande importância no cenário político e social do país, tendo contribuído sobremaneira para a redemocratização do Brasil e para a elaboração da Constituição de 1988.

Texto produzido por Laura Kasemiro, bolsista de Treinamento Profissional do Memorial da República Presidente Itamar Franco sob supervisão de Mauro Gabriel Morais, da divisão de difusão cultural e educação. Trabalho desenvolvido como atividade de pesquisa para a elaboração da exposição “Seres políticos, seres plurais”.

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