A conservação dos documentos dos movimentos sociais como um desafio do nosso tempo

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Pensando a participação e a atuação dos movimentos sociais no período de redemocratização do Brasil, a exposição “Seres políticos, seres plurais”, em cartaz na galeria virtual do Memorial, discute política e pluralidade no cenário nacional. Nesse contexto surgem novos questionamentos: e hoje, como estão os movimentos sociais? Como é feito o trabalho de manutenção da memória dos movimentos? Representantes de importantes acervos brasileiros, Carolina Saporetti (Cecom/UFJF), Renata Cotrim (Cedem/Unesp) e Veronica Freitas (Instituto Vladimir Herzog) respondem essas e outras questões na mesa “Memória e resistência – acervos de movimentos sociais”, promovida pelo Memorial em setembro.

Os problemas enfrentados por esses acervos arquivísticos são distintos, da falta de reconhecimento popular até a insuficiência de recursos para manutenção e aprimoramento. Diante da pandemia de Covid-19 a reinvenção se tornou imperativo. Da criação de podcasts às onipresentes lives, muitas foram as maneiras utilizadas por esses órgãos para conseguir alcançar o público e se fazer presente. Da mesma forma, se reinventaram os movimentos sociais, em por auxílio emergencial em tempos pandêmicos, por vacina e outras demandas, em registros já históricos.

A prática de conservação dos documentos dessas organizações, no entanto, se configura como um “um desafio do nosso tempo”, pontuam as representantes dos acervos, já que com as redes sociais tornaram-se efêmeros os registros de atos e procedimentos dos movimentos sociais. Também se alteraram as perspectivas. A articulação do movimento negro, principalmente após os protestos pela morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos vitimado pela violência policial nos Estados Unidos, estimulou o questionamento acerca da valorização de figuras históricas que cometeram crimes racistas e antidemocráticos. Muitas dessas figuras são homenageadas até hoje, com nomes em logradouros públicos e com monumentos. Como é construída e reconstruída a memória, afinal?

Estantes do Cedem, na Unesp. (Imagem: Divulgação)

O amplo acesso aos meios de comunicação, a globalização, atuam para influenciar e, também, para conformar a narrativa acerca da história, construindo ou desconstruindo processos sociais, políticos e culturais. Segundo Veronica Freitas, do setor de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, dois fatos contemporâneos são alvo de disputa: o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e a chacina do Jacarezinho, mais brutal da história do Rio de Janeiro. Ambos evidenciam violações aos direitos humanos no Brasil. E apenas a salvaguarda dos documentos acerca desses fatos garantirá a prevalência da verdade, formará a memória justa e contribuirá por um novo futuro. Esses espaços de memória preservam o passado e o presente em nome do futuro.

Texto produzido por Luana Dias, bolsista de Treinamento Profissional do Memorial da República Presidente Itamar Franco sob supervisão de Mauro Gabriel Morais, da divisão de difusão cultural e educação. Trabalho desenvolvido como atividade paralela da exposição “Seres políticos, seres plurais”.

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