Memória e disputa por poder: a importância dos acervos dos movimentos sociais no cenário nacional

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Hoje presenciamos um momento histórico de consequências globais, que acarretou dificuldades em todos os âmbitos sociais em nosso país. Em meio a um cenário tão custoso, tanto pelas vidas perdidas quanto pela falta de acesso a direitos básicos, o panorama sociopolítico do Brasil também sofre para manter a democracia em sua potência e plenitude. Há uma luta pela preservação e pela disseminação de fatos fundamentados, científicos e documentados. Justamente nessa luta atuam acervos e arquivos que guardam partes da memória nacional, instituições que possuem o intuito de manter esses bens disponíveis para as gerações do presente e do futuro.

Lugares da memória dos movimentos sociais, o Centro de Conservação da Memória da Universidade Federal de Juiz de Fora (Cecom/UFJF), o Centro de Documentação e Memória da UNESP (Cedem), e o Instituto Vladimir Herzog atuam em prol desse passado. E sobre ele falam suas representantes – Carolina Saporetti (Cecom), Renata Cotrim (Cedem) e Veronica Freitas (IVH) – na mesa “Memória e resistência: acervos de movimentos sociais”, promovida pelo Memorial em setembro. Além da preocupação com a proteção da documentação histórica, as instituições também se atentam para a popularização dos acervos e para as formas de torná-los acessíveis por meio de recursos, meios e linguagens.

E qual é a importância da memória para o cenário político nacional? Para essas representantes de importantes acervos nacionais, a resposta está na disputa política acerca do sentido que será atribuído às memórias coletivas e sua construção. Os acervos dos movimentos sociais compõem uma memória que vem de classes populares, contando a história do país e de sua trajetória política. Esse lugar de memória nacional é um dos espaços desta chamada disputa política. Um lugar de conflito permanente, onde os acervos, assim como outras organizações, precisam atuar para que os princípios democráticos brasileiros, assim como os direitos humanos, não sofram atentados em função de contra-discursos ou subversões históricas mal intencionadas.

O Estado não garante ao povo o direito às memórias populares, sendo os documentos produzidos por organizações sociais carentes de legislação de proteção, explicam as especialistas. Negar o conhecimento da história, a todo tempo reescrita, representa essa disputa por memória. E é preciso reconhecer o passado dos movimentos sociais, assim como as intenções e direcionamentos políticos de cada contexto histórico, pontuam. O reconhecimento do assassinato de Vladimir Herzog, por exemplo, faz parte do processo de reconhecimento de um passado autoritário do país como algo contrário aos postulados dos direitos humanos.

“Quem matou Herzog?”, perguntavam as cédulas carimbadas pelo artista Cildo Meireles e colocadas em circulação como uma intervenção “artivista”. “Quem matou Marielle Franco?”, perguntam diferentes perfiz nas redes sociais, tentando demarcar essa memória violenta do presente. Renata Cotrim é precisa acerca da importância dos acervos na formação da história: “A memória é uma atividade do presente, a memória não é uma atividade do passado. É agora que a gente decide o que fica e o que não fica. E quem faz isso? A gestão documental.”

Tem no acervo do Memorial: trabalho “artivista” de Cildo Meirelles

Texto produzido por Laura Kasemiro, bolsista de Treinamento Profissional do Memorial da República Presidente Itamar Franco sob supervisão de Mauro Gabriel Morais, da divisão de difusão cultural e educação. Trabalho desenvolvido como atividade paralela da exposição “Seres políticos, seres plurais”.

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