A cidade em mutação e o museu atento

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Cumprindo compromisso de se fazer constantemente contemporâneo, Memorial enfoca transformações na ocupação da cidade em nova mostra que considera pandemia, momento no qual museus buscaram novas ferramentas para manter atividade

Foram dois longos anos. E o Memorial da República Presidente Itamar Franco reabriu as portas. A nova exposição, “Ganhar as ruas”, considera o tempo de portas fechadas, de ruas vazias, de medos, perdas e luto. A mostra é um convite à reflexão sobre a volta às ruas após dois anos de reclusão e conta com fotos antigas e recentes de Juiz de Fora, ofertando distintos olhares para a cidade na qual Itamar Franco cresceu, estudou e governou.

Anteriormente habitada pelas tribos indígenas Coroados e Puris, Juiz de Fora, bem, como a região da Zona da Mata mineira, passou a ter uma constante circulação de pessoas por volta de 1703, com a construção do Caminho Novo, estrada que facilitou o escoamento de ouro do interior do estado até o porto do Rio de Janeiro. Hospedarias e armazéns foram sendo erguidos ao longo do caminho, dando origem às vilas, que mais tarde se tornaram distritos ou municípios.

Vila de Santo Antônio do Paraibuna se torna cidade em 1853. Doze anos depois, ganha o nome de Juiz de Fora, em referência a um magistrado nomeado pela Coroa Portuguesa para atuar no lugar que não contava com um juiz de direito, segundo consta a versão mais conhecida. Nos dois últimos séculos foram muitas as mudanças no cenário urbano, social e cultural da cidade. Juiz de Fora ganhou seus próprios costumes e festividades, como as folias de Reis, o carnaval de rua e de escolas de samba, os bares e, mais recente, o principal evento gay do país, o Miss Brasil Gay.

Nesses eventos e na rotina de um município cujo centro é quase todo interligado por galerias as pessoas ganham as ruas. A pandemia, no entanto, impôs outras transformações, como o fechamento de 250 lojas na região central, a paralisação de eventos para públicos superlativos, a restrição de acesso a diferentes lugares públicos. Na medida em que os protocolos de segurança contra a Covid-19 vão sendo afrouxados, uma nova cidade irrompe, ganha as ruas.

O museu e seu compromisso

Em tempos de ressignificação, a atuação do museu também ganhou nova forma. As portas fechadas abriram outra janela: a do ambiente virtual. Diferentes ações foram pensadas ao longo do período mais crítico da pandemia, no intuito de manter ativo e potente o espaço museológico, ainda que a visitação do Memorial estivesse interrompida. Revisitamos, então, algumas dessas ações.

Máscaras (2020)
Distribuição de máscaras de proteção acompanhadas por diferentes indicações, como a dos espaços culturais participantes da Primavera de Museus, a dos patrimônios culturais existentes em Juiz de Fora, a dos livros para leitura durante a quarentena.

Correspondências afetivas (2020)
Intervenção urbana de reescrita e espalhamento pela cidade de algumas cartas com temáticas relacionadas ao projeto “Inumeráveis”, que conta a história de cada vítima da Covid-19.

Gavetas de memória (2020)
Inspirada no gaveteiro do espaço expositivo do Memorial e no trecho do livro “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes, no qual o autor diz haver “muitas gavetas na memória”, a ação educativa propunha a produção de obras revisitando memórias pessoais. O trabalho buscava compreender o tempo presente e integrar os diferentes indivíduos no enfrentamento à pandemia.

Seres políticos, seres plurais (2021)
Projeção de imagens na parede externa do Memorial da luta de movimentos sociais pela redemocratização do Brasil, nos anos 1980, e em prol de um país mais plural. Inspirada na exposição virtual e imersiva de mesmo nome, a projeção integrou ação que também interveio na paisagem urbana, com a colagem de lambes em postes com a pergunta “Qual é a sua luta?”.

Texto produzido por Luana Dias, bolsista de Treinamento Profissional do Memorial da República Presidente Itamar Franco sob supervisão de Mauro Gabriel Morais, do setor de Educação e Cultura.

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