Cultura popular: festas, sociabilidade e patrimônio

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Como saberes e práticas tradicionais podem atuar pela criação e consolidação de uma identidade cultural

Considerada uma expressão de difícil definição, a cultura popular existe e tem ganhado a atenção de intelectuais desde o fim do século XVIII. Desde então, foi utilizada em diferentes contextos e com intuitos variados, formando um campo constituído de muitas críticas, trocas e disputas entre inúmeras áreas de conhecimento no interior das Ciências Humanas e Sociais.

A palavra cultura vinda do verbo latino colere, remonta ao cultivo e ao cuidado com as plantas e os animais, bem como o cuidado com as crianças e os deuses. Ao longo dos séculos, seu significado passa por profundas alterações, sendo articulado com concepções como civilização, progresso, educação, história; e é influenciado pelo modo de produção e organização, valores e crenças de cada sociedade em diferentes épocas.

No Brasil, a expressão cultura popular está presente desde, pelo menos, o século XIX, acompanhando inicialmente uma linha do pensamento intelectual de antropólogos, sociólogos, folcloristas, artistas e educadores, que buscavam a criação de uma identidade cultural. Nesse movimento, e ainda atualmente, a cultura popular ora era vista de maneira negativa, associada ao atraso, ora enxergada como positiva, relacionada a um futuro excepcional para o país.

“O ‘popular’ não está contido em conjuntos de elementos que bastaria identificar, repertoriar e descrever. Ele qualifica, antes de mais nada, um tipo de relação, um modo de utilizar objetos ou normas que circulam na sociedade, mas que são recebidos, compreendidos e manipulados de diversas maneiras”, observa Roger Chartier em “A história ou a leitura do tempo”, de 1995.

As festas de São João e suas quadrilhas são exemplares de práticas culturais tradicionais no Brasil. (Foto: Divulgação)

As festas representam esses modos. Elas se configuram como importante espaço de sociabilidade, de representações e concepções de significados para diferentes grupos. Considerada uma das atividades mais antigas da vida urbana no Brasil, as festas foram, ao longo do tempo, perdendo espaço de um lado, e permanecendo como lugar primordial de consolidação da identidade coletiva de outro. São espaços representativos, nos quais crenças e valores são difundidos para outros grupos.

Uma vez que a cultura popular não se configura como imóvel, incorporando e influenciando diferentes elementos que são rearranjados à conjuntura de cada comunidade, percebemos que, “as festas são o espaço onde as identidades vão dialogar entre si constantemente, se renovando mutuamente e se transformando diariamente, não sendo nunca algo acabado, mas um processo constante de reconstrução”, conforme assegura Gabriela Marques, em sua dissertação intitulada “Cultura popular e comunicação: a Folia de Reis em bairros populares de Juiz de Fora”, de 2014.

Ainda, as festas são espaço primordial de propagação de valores e saberes, mesclando, por exemplo, a tradição católica com as práticas negras e indígenas, além da oralidade, considerada por especialistas como fundamental. Nesse sentido, vão constituindo-se também através da tensão entre o velho e o novo, onde os sujeitos servem-se da tradição para gerar novos elementos. Tudo isso fica claro na expressão dos grupos de Folias de Reis, jongos, congadas, dentre outros. Martha Abreu e Hebe Mattos, em “Festas, patrimônio cultural e identidade negra: Rio de Janeiro, 1888-2011” afirmam: “a festa permitia que os descendentes da última geração de escravizados dos vales do café falassem do passado e do presente através de versos e desafios, do seu próprio mundo. […] A festa tornava-se um exercício do seu próprio patrimônio”.

Em 2019 o Memorial explorou o assunto na exposição “Reminiscências: danças populares e processo civilizatório no Brasil”. Recorde clicando aqui!

Texto produzido por Tainá Oliveira, historiadora que atuou como bolsista de Treinamento Profissional do Memorial da República Presidente Itamar Franco sob supervisão de Mauro Gabriel Morais, do setor de Cultura e Educação.

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