As marcas que ficam: Marilyn, Ruskin e Valéria Faria

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Como a história de um vestido, uma teoria de restauração e uma obra contemporânea dialogam pela memória

As rachaduras em uma parede de uma casa velha, as solas desgastadas de um sapato, ou até mesmo o tom esverdeado que uma estátua de cobre possui. Todas essas marcas pontuam a passagem do tempo, falam sobre algo que era novo e se deteriorou. E cabe investigar a existência de uma beleza na preservação de objetos que sofreram alguma degradação.

Marilyn e JFK no evento em que ela cantou o famoso “Happy Birthday” para o presidente. (Foto: Reprodução Biblioteca J. F Kennedy)

Kim Kardashian, personalidade da mídia norte-americana, usou no badalado Met Gala deste ano um icônico vestido de Marilyn Monroe. A atriz de Hollywood morta em 1962 vestiu a peça quando cantou “Happy Birthday” para o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, há 60 anos. Até então, o vestido estava preservado como patrimônio histórico no Museu Ripley’s Believe It or Not!, em Orlando.

A utilização da vestimenta original dividiu opiniões. Algumas acusações dão conta de que o vestido, que estava em conservação, ao ser utilizado por um novo corpo, com dimensões diferentes, acabou sofrendo danos nas costuras traseiras, perdendo vários dos cristais. O museu que realizou o empréstimo, no entanto, garantiu que a peça foi recebida nas mesmas condições em que foi entregue. Fotografias contrapondo o antes e o depois do evento foram compartilhadas pelo perfil no Instagram @marilynmonroecollection, apontando as alterações.

Kim Kardashian vestida com a peça eternizada por Marilyn Monroe e as marcas apontadas após uso da roupa. (Foto: Getty Images/@1morrisette)

Os passos entre o estático e mutável

John Ruskin foi um famoso escritor, crítico de arte e sociólogo do século XIX, que estudava sobre o restauro na arquitetura e a importância da conservação. Morto no vigésimo dia do ano 1900, ele defendia a permanência estática de uma construção, sem modificações ou consertos, o que, para ele, permitia-lhes envelhecer com o tempo e, assim, admitir a morte. Tal perspectiva compreende a natureza das feridas e das alegrias que o tempo causa , num cruzamento com o desenvolvimento cultural e semiótico dos novos tempos. “Podemos saber mais da Grécia e de sua cultura pelos seus destroços do que pela poesia e pela história”, argumentava Ruskin.

Obra “Nosso senhor dos mesmos passos”, de Valéria Faria, em cartaz na exposição “Tantas Trajetórias” (Foto Memorial/Divulgação)

Assim como o caso do vestido de Marilyn, com suas novas camadas de leitura, e a estratégia de preservação de John Ruskin, a instalação “Nosso senhor dos mesmos passos”, da artista Valéria Faria, também confere a um objeto deteriorado a capacidade de narrar uma existência. Enfileirados pela filha, os sapatos herdados do pai contam sobre aquela vida, seu andar torto, seu estilo, sua resistência à troca. Integrando a exposição “Tantas Trajetórias”, em cartaz no Memorial da República Presidente Itamar Franco, a obra reúne 15 pares de sapatos de um mesmo homem, que,  ao longo da caminhada, usou cada um até que se desgastasse e, então, o guardou, arquivando sua história e suas trajetórias. Como um ritual de auto-preservação.

A esse inventário de passos a artista adicionou novos elementos – a pintura de uma cruz nas pontas, uma camada dourada no interior, selos nas palmilhas e, agora, flores secas ofertadas pela tia, a primeira vereadora da história de Juiz de Fora. Os sapatos, como o vestido de Marilyn, sofreram intervenções, ganharam nova história. Novas marcas  eternizam não apenas a memória do dono dos calçados como também tantas outras trajetórias, tantos outros sapatos.


Texto produzido por Juliana Barbosa, bolsista do Programa de Bolsas de Iniciação Artística (Pibiart) na modalidade Mediação Artística, no Memorial da República Presidente Itamar Franco, sob supervisão de Mauro Gabriel Morais, do setor de Cultura e Educação.

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